O tema do XIII CIFE gira em torno das territorialidades infantis e dos encontros possíveis a partir destas relações atravessadas por uma infância do pensamento (Kohan, 2022; Lyotard, 1993). O evento lança uma discussão a partir da concepção de estrangeiridade e de deslocamento presentes em diversos estudos recentes (Kohan, 2019; Gaivota, 2017; Fonseca, 2020) e que, entre outros conceitos contribuíram para a composição do conceito de Errância trabalhado no último Colóquio (XII CIFE) e em diversos trabalhos nos últimos anos. A partir da imagem de um cais ou de um porto onde viajantes de lugares diversos possam se encontrar para compartilhar línguas, sabores e histórias, o CIFE se propõe como um ponto de encontro entre pesquisadoras, profissionais, entusiastas e exploradoras de um campo que é interseccionado pela Filosofia da Educação, dos Estudos da Infância e das Filosofias da Infância. Admitindo como premissas básicas desse campo emergente a heterogeneidade, multiplicidade e a contaminação entre territórios estrangeiros, o evento convida as pessoas participantes a refletir sobre estas disposições e como elas podem definir que tipo de saber esse campo pode produzir na realidade.
A palavra “fisolofar” do título remete a esta produção de saber aberta e atenta às epistemologias infantis: recentemente Edna Olimpia da Cunha defendeu uma tese de doutorado no PROPEd/UERJ com o título: Por um devir quilombo na escola pública: resistir com infâncias na filosofia (Cunha, 2025). Ela trata de sua experiência de filosofia com crianças de todas as idades na Escola Pública da periferia fluminense. Na tese, ela narra o modo como algumas crianças e adolescentes, mais velhos e mais velhas, mudando a posição das sílabas, pronunciam a palavra e lhe perguntam quando chegam à escola: “Tia, vai ter fisolofia hoje?” Assim, as crianças inventam uma palavra estrangeira, uma marca que desloca a filosofia dos seus territórios habitados, conhecidos, tradicionais.
Esse desvio é a marca daquilo que o evento buscará, isto é: que os participantes coloquem em questão aquilo que pensam. Ou seja, que encontrem novas perguntas antes que repitam velhas certezas. O NEFI afirma, com a organização do XIII CIFE, o compromisso da Universidade Pública com a promoção de espaços abertos de pensamento que permitam uma vida mais reflexiva e coloque, coletivamente, em questão os problemas de nosso tempo. Busca assim engendrar um encontro coletivo de pensamento, questionamento e diálogo, em meio às crises e sob os efeitos dos modos de exercer os poderes que atentam contra a vida em nosso tempo, que afirmam como paradigma o acerto, o resultado e a homogeneização dos objetivos, capturando as potências das instituições educativas em função de lógicas alheias a elas. Assim, formato e o tema do evento são já uma forma de resistência – não na forma de uma resposta, mas de um desvio, da afirmação de uma terra que não é território.
A afirmação de uma terra, mais que um território, representa uma pergunta. Um desafio a esta categoria tão difundida por pensadores como Deleuze e Guattari (2012) e outros que habitam o mesmo topos conceitual. Afirmar uma terra infantil – e através da imagem do porto de viajantes propomos um tempo-espaço suspenso, temporâneo, pouco estruturado e com infinitas aberturas –, desafia o conceito de território propondo um espaço outro para o pensamento: um fora (Blanchot, 2010), uma khôra (Derrida, 1995). E, ao afirmá-lo, sugerimos que a infância é composta ela própria de uma estrangeiridade, de um povo de migrantes que, num mundo adulto, falam sempre com um sotaque diverso.
A partir destas provocações, esperamos avançar nas linhas que delineiam o que é a infância e qual o seu lugar, problematizando, no contexto político que é o nosso, o sentido da educação e, consequentemente, o sentido da própria atividade docente. Esperamos que esta reflexão nos permita continuar afirmando a educação pública compondo relações errantes, mais alegres e potentes entre nós e os outros, nos acontecimentos de aprender e de ensinar. Através do formato não tradicional de trabalho, que tenta escapar das relações hierárquicas entre quem sabe e quem não sabe, acreditamos que tornem-se possíveis estéticas ensinantes e aprendentes que afirmem, através dos deslocamentos, outras potências da vida. Enfim, o XIII CIFE representa um convite para estudantes, professoras e professores de todos os níveis de ensino costurarmos juntos, errando, no espaço do pensamento e da vida e em meio aos sufocos que enfrentamos no presente, linhas e fluxos que afirmem outra política, outro pensamento, outra vida.
A inscrição para o XIII Colóquio Internacional de Filosofia e Educação é GRATUITA e aberta a TODAS as pessoas, sem condições. As inscrições poderão ser feitas neste site, do dia 5 de fevereiro ao dia 30 de abril de 2026.